sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

ASAS DO DESEJO (1987)

Anjos sobre Berlim

ASAS DO DESEJO (Wings of Desire / 1987) - Uma boa ideia vale um filme. E a de Asas do Desejo é ótima - a humanidade é vigiada o tempo todo por anjos invisíveis, que nos ajudam, nos confortam, nos guiam. O filme alemão, quase todo em PB, tem muito mais do que aquela pegada de filme de arte, vai além disso. Muito graças à Wim Wenders, um dos diretores mais importantes do chamado Novo Cinema Alemão, surgido nas décadas de 60 e 70 com forte influência da Nouvelle Vague francesa.

A visão dos anjos

Em Asas do Desejo os anjos, que pairam sobre uma Berlim dividida pelo muro, escutam os pensamentos e os sussurros das pessoas. Boa parte da hora e meia inicial do filme é tomada por longas tomadas de pessoas caladas, onde ouvimos apenas os seus pensamentos. Anjos estão ali, por toda a parte. Eles são apenas vistos pelas crianças.

Anjos dando conforto e paz às pessoas

Um deles se apaixona por uma trapezista de circo. Mas mais do que isso, ele começa a ficar obcecado pelos sentimentos humanos, pelo toque, o quente e o frio, pelo gosto, o paladar, por olhar e ser notado, fazer diferença na vida de uma pessoa. Essa angústia começa a sufocá-lo, até o momento em que ele fala sobre isso com um outro amigo anjo. A saída - ele decide se "matar" para se tornar humano.

A trapezista, alvo da paixão do anjo

De repente de um PB passamos a um filme cheio de cor e com tomadas diferentes - afinal agora o anjo é humano. Aprendemos com ele cada uma das suas conquistas - o toque, as cores em uma pichação na parede, o abraço, os aplausos em um show de música - no caso de Nick Cave and the Bad Seeds - onde ele acaba reencontrando a trapezista.

O anjo ganha vida, se torna humano e o filme ganha cor

Você deve ter pensado "conheço essa história". Sim, verdade. Asas do Desejo inspirou o filme Cidade dos Anjos com Nicolas Cage e Meg Ryan, que saiu 11 anos depois. Mas no filme norte americano o romantismo toma o lugar da poesia. O problema na versão norte americana é que eles tocaram muito pouco - ou nada - no que mais importa no roteiro e o que faz do filme de Wim Wenders tão especial - um não-humano e sua luta por renascer num ambiente que ele não é natural.

Wenders de óculos no set

Asas do Desejo tem vários momentos de pura contemplação, seja da cidade de Berlim vista de cima ou de baixo - ainda com o muro que seria derrubado pouco tempo depois - ou até mesmo da existência humana. Os diálogos são pura filosofia (Wenders se formou na matéria na faculdade), tornando a experiência de assistir ao filme pesada em alguns momentos.

Anjo conhecendo as ruas

Principalmente porque filmes europeus, tem uma linguagem diferente da de Hollywood. Não são melhores ou piores, são apenas diferentes. Então aqui, algumas cenas se arrastam mais do que deveriam, o corte demora à chegar, e os monólogos são longos. Mas nada disso é ruim, é só uma característica. Asas do Desejo é fascinante, uma experiência única e que nos faz abrir os olhos para outros cinemas por aí. Um filme mágico.
Veja abaixo o trailer de Asas do Desejo.



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